De frente com a Kim: Nahra Mestre


Oi, amores! ♥

O "De frente com a Kim" de hoje será com a escritora Nahra Mestre.

Nahra Mestre
Escrever foi algo inusitado. Quando nova, nunca fui uma amante da literatura, minha paixão sempre foram os números. Descobri o prazer da leitura na terceira década de vida. Devorei, mastiguei, engoli e não consegui mais parar.
Sem pensar muito resolvi criar histórias. Escrever foi uma catarse, onde encontrei um pedaço que me faltava.
Meu primeiro livro foi escrito em 2015 e depois que esse bichinho maluco e inusitado me picou não consegui mais parar.

Oi, Nahra! Fale um pouco sobre você.
Oi, Kim. Aquariana, doida, curiosa, inquieta. Acho que essas quatro palavras me definem.


Como surgiu sua paixão pela literatura?
Lourenço Mutarelli do livro “A arte de produzir efeitos sem causa”. Tem nome e sobrenome. O primeiro contato prazeroso foi ele. Hoje tenho consciência que ele me tirou da razão, dos números pra me mostrar a emoção das palavras. Mas só fui entender o efeito que ele fez na minha cabeça, 3 anos depois, o porquê que eu me apaixonei tanto.

Como começou a escrever e qual foi seu primeiro impacto com a escrita?
Foi literalmente, eu acordei dia 22 de fevereiro de 2015 e falei: “Vou escrever um livro”. Não necessariamente significa que a criação da história começou nesse dia. É uma história que eu carregava há tempo, talvez dois anos, não sei, mas consegui colocar isso em palavras. Eu só me dei conta quando eu terminei, porque eu fui seguindo um fluxo e as pessoas foram lendo e eu nunca imaginei que pudesse ser aquilo e nunca imaginei que pudesse ser uma história, um livro. Aconteceu e foi muito natural.
Você disse que a história já estava aí. Muitos temos histórias em nossas mentes, mas poucos damos essa vazão para elas e liberamos para o mundo. Quando você percebeu que seu livro conquistou as pessoas?
Quando tinha duzentas pessoas acompanhando no Wattpad, porque como eu lia lá, eu postava lá. Eu nem imaginava que as pessoas iriam ler. É lógico que a gente quer que as pessoas lêem. Infelizmente, a gente virou números e a gente quer que alguém lê, conheça o trabalho, tenha esse trabalho. Eu assustei ali, quando vi pessoas comentando, interagindo. Aí eu olhava e eram duzentas pessoas atuantes, duzentas pessoas que tinham rosto, que eu conseguia falar, que eu conseguia ver, que eu conseguia saber que existia, aí eu assustei, porque tinham ainda mais fantasminhas.
Eu não sei se faço a linha de conquistar pessoas, eu nem sei se tenho isso como objetivo, mas tocar os corações das pessoas, e é pra isso que eu trabalho.

As personagens dos seus livros são inspirados em pessoas reais?
Não necessariamente pessoas que existam. Pessoas construídas baseadas em pessoas reais. É muito da observação do ser humano, algumas pessoas inspiram, mas eu acho que é um misto de pessoas e não uma única pessoa.

Qual dos seus personagens mais te marcou? E por que?
Ah! Cada um tem sua luz, seu brilho especial. Eu geralmente fico muito envolvida com os últimos personagens dos últimos livros que eu escrevi. Sem dúvidas, Izadora e Eduardo vão me marcar, por serem os primeiros e em consequência o Marcos que acho que tem muito de mim. Mas eu não sei, não posso falar, porque cada um na sua particularidade, nos seus defeitos, nas suas qualidades. A Luana do “Até que a vida nos separe”, a gente teve uma ligação muito forte, ela me marcou muito, assim como a Bela, assim com a Ju, assim como a Laura, assim como a Ana, não sei, não tem como escolher só um.

 Vou levar a Lua pra vida toda. Ela é um mulherão. Até que a vida nos separe é um dos meus livros favoritos da vida.
Eu me lembro que pra escrever o epílogo eu chorei, chorei, rezei pra alma dela, cara. Foi muito doido isso, a ligação com os personagens foi surreal. Eu permito que eles existam enquanto estão sendo escritos, enquanto eles estão existindo eu permito a existência deles.

Sentir e viver os personagens é algo muito lindo. Como é o seu processo de escrita?
Tudo começa com uma inquietação louca, seguida por uma faxina maluca, seja ela limpeza mesmo, seja ela limpar guarda-roupa ou jogar papel fora, faxina brava, aquela que a gente faz uma vez por ano eu faço em cada início de livro. Primeiro vem essa faxina, casa limpa, geladeira cheia, comida no freezer. Tenho essa preocupação mesmo que inconsciente. Meu marido já saca quando começa essa loucura. E enquanto tudo isso está acontecendo a cabeça está fervilhando. Certamente antes disso a cabeça já está fervilhando. Hoje eu já consigo mandar os personagens ficarem quietinhos e vir na hora certa. O processo de escrita hoje é muito diferente de antes, eu sei mais ou menos onde quero chegar, mas nem por isso eu deixo de dar vida para esses personagens.
Não acredito que música seja algo benéfico, contato com as pessoas seja algo benéfico. Eu me fecho depois da faxina, da geladeira cheia, eu me fecho. Vou pra um lugar onde não tenha ninguém e ali começa.
Às vezes é difícil você começar o primeiro parágrafo de um livro, mas depois do terceiro parágrafo a coisa anda, a primeira cena nasce e você para, respira e vê o que você botou ali para começar a construir o que é, aí você já tem o tom da história, eu deixo ela sair, mas a faxina é a primeira coisa.
Tem outra coisa interessante, que mesmo com o escritório aqui fora, é assim: toda vez que eu vou terminar um livro, eu fico inquieta e acampo na mesa de jantar, eu preciso terminar o livro na mesa de jantar. Quando falta muito pouco dá um comichão e eu sento na mesa de jantar.
Tenho uns rituais muito doidos. Sempre começo a estudar antes de escrever, não escrever um livro, só escrever. Às vezes eu leio um parágrafo e pronto, preciso usar isso em um livro, aí não consigo mais parar de escrever, mas ultimamente eu tenho buscado ler algum material técnico ou teórico para escrever.
Estava pensando que isso de fazer a faxina, encher a geladeira e deixar as coisas arrumadas, tipo, eu sou aquariana pra caramba, dizem que aquariano é desapegado, bicho livre, bicho solto. Acho que tem alguma coisa assim, tipo uma sensação de responsabilidade, igual viajar, é como se eu fosse deixar tudo pronto pra viajar. É mais ou menos isso, eu vou deixar tudo pronto pra sair desse mundo.
Tem algum autor que te influencia na escrita?
Tudo o que a gente lê. Tudo que a gente lê influencia, a gente começa com uma perspectiva diferente. A Deh Ratton, por exemplo, quando eu a li, eu falei: “Pô, se um dia eu escrever na vida quere escrever igual essa mulher”. Até as porcarias que eu leio, por exemplo, eu vou procurando as técnicas que eu estudo, vou procurando os sentimentos que despertam ou a falta deles. Aí a gente vai aprendendo o que fazer e o que não fazer, como usar aquilo de forma diferente. Você continua se emocionando, se entregando, mas você começa a enxergar outras coisas além do enredo. Não sei te explicar, por exemplo, é a mesma coisa de você aprender a cozinhar, você quando saboreia um alimento, não é só estar gostoso, você sabe o que é você consegue identificar o tempero. A mesma coisa com o perfume, você conhece os aromas: “Ah, tem um toque de alecrim”. Eu acho que é mais ou menos isso, você vai desenvolvendo essa habilidade, que eu acho que você vai passar o resto da vida desenvolvendo e nunca estará perfeita, e você vai aprimorando. Vai vendo que uma coisa está muito mecânica, outra muito esperada, que algo é bacana, mas se você usar de uma forma diferente, usar um pouco de outros elementos fica melhor. Entendeu? Tudo, tudo é influenciável. Você vai à padaria e às vezes a forma como a menina que te atende e sorri pra você, você olha pra expressão do rosto dela e fala: “Ah, virou cena!”.

Fica claro em seus livros que todos têm mensagens para passar aos leitores, sempre tem um aprendizado. Eles são propositais? Ou nascem com a história?
Eu acho que escrever tem que ter um propósito, que todo mundo aprende um monte de coisas todos os dias, nossos erros, nossos acertos, mais os erros, mais os sofrimentos nos ensina. Se não houver transformação não tem sentido, não adianta a gente ser a mesma pessoa que foi ontem. E se eu for contar uma história sem uma reflexão, eu não conto. Sabe? Eu acho que antes penso na reflexão, pra depois pensar na história.

Qual foi a reação da sua família quando você começou a escrever? E agora que você decidiu que vai viver disso ou pra isso?
Minha família é micro, filho, marido e mãe. Meu filho e meu marido me apoiam incondicionalmente. Eu boto prazo pra dar certo, meu marido não deixa, ele acha que tem que persistir. A minha mãe, ela não fala muito. Acho que depois que ela foi à bienal mudou muita coisa, mas ela não fala, acho que depois que ela leu “A Marquesa”. Quando eu vi, ela começou a me dar livros, livros de técnicas de escrita, clássicos que ela gostaria que eu lesse e a gente vai à livraria, ela me enche de livro. Muda, não um apoio assim, eu apoio, eu acredito em você, mas tipo, ela arrumou um evento, um circulo cultural na prefeitura de Nova Lima, onde vou me apresentar “Mulheres que escrevem”, ela incentiva de uma forma velada.
Viver disso é um sonho, Kim. Pra isso também. Não vou deixar de escrever nunca, eu acho, mas se chegar uma hora que eu precisar parar... A gente precisa comer, vestir, pagar conta. Se tiver que parar, a gente para, com a cabeça erguida de quem tentou, mas parar de escrever não.

Se você pudesse conhecer qualquer autor, mesmo os que já morreram, para fazer uma parceria, escrever uma obra em conjunto, quem seria?
Se puder não ser um autor, a minha bisavó era portuguesa, um dos primeiros pré-vestibulares aconteceram em Belo Horizonte, ela dava aula no Rio. Era foda! Se eu pudesse trazê-la de volta, eu traria para aprender com ela, pra ter aulas com ela e certamente ela me ajudaria a escrever um livro. Não necessariamente um autor, não sei se ela escrevia, nunca chegou nada na minha mão, mas seria ela. Sem dúvida nenhuma eu gostaria de aprender com ela.

No seu livro "Até que a vida nos separe" existe traição. Você acredita que é possível perdoar e continuar com a amizade dessa maneira na vida real?
O que é traição? Trair o outro ou trair a si mesmo? Você vai trair de todo jeito, se você tiver vontade de ficar com alguém e não ficar, você está traindo a si mesmo. 
Vamos pensar no caso de traição do “Até que a vida nos separe”. Não é uma questão de caráter, é uma questão de sentimento, é uma questão de desejo. Ninguém é posse de ninguém. A partir do momento que eu namoro, que eu caso com alguma pessoa, ali é um compromisso.
O conceito de traição é muito relativo. Traição para mim é ferir valores, seja ele honestidade, lealdade, fidelidade... Depende do que foi acordado.
Sim, eu acredito em perdão. Mas no caso das meninas todos erraram. Cada um foi egoísta e defendeu o que acreditava ser melhor para si. Foi uma sucessão de erros.

Você consegue ter equilíbrio entre a vida pessoal e a vida profissional?
Juro que tento kkkkkkk Tenho mil cadernos, bujo e planners, mas trabalhar em casa é uma arte. É estar disponível sem estar de fato. As pessoas não compreendem que escrever é um trabalho como outro qualquer. Eu costumo dizer que o apoio da família vai até a pagina 8 kkkk porque na hora de ter que abrir mão do tempo sempre acabo sacrificada.

O que você espera para 2019? Tem livros novos em mente? Se puder conte um pouco sobre eles.
‘Tenho uma meta absurda de livros para 2019. Sete, mas não sei se será humanamente possível.
Vou terminar a Série Damas Perfeitas. Relançar 2 livros e me entregar de corpo e alma para um novo projeto.

Deixe um recado para seus leitores.
Não pare de sonhar...

Nahra, muito obrigada pela nossa conversa. Sucesso e felicidade no seu caminho.
Kim, minha querida amiga, beta e companheira. Eu é que tenho que agradecer o carinho, o respeito, a amizade e os deliciosos momentos que compartilhamos. Sou muito grata por ter você na minha vida e ter o prazer de te chamar de amiga. Te amo.



Onde encontrar a Nahra:

Onde encontrar os livros da Nahra:
Não pare de sonhar

Até que a vida nos separe

A Marquesa

A Cortesã

A Viúva

Combo Série Damas Perfeitas
Físico: https://www.editoraportal.com.br/produto/damas-perfeitas-combo/

Termino essa entrevista com o coração transbordando e olhos cheios de lágrimas. Até a próxima.
Beijinhos, Kim.

4 comentários

  1. Que entrevista Linda!
    Totalmente acessível!
    Transpassa carisma em cada palavra! Doida para ler os livros!

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    1. Obrigada, Evy! 💜
      A ideia é mostrar a humanidade dos autores, que eles são gente como todo mundo.

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  2. Kim eu tenho quns e certeza que já conheci pessoalmente está escritora. Eu acho que a gente tem mais é que valorizar a escrita nacional. Imagino o quanto é difícil estar disponível sem estar rsrs
    Muito legal sua entrevista. Beijos

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